Fuvest - Unicamp 2009

A Cidade e as Serras - Eça de Queirós

Irreverência e sensatez, entre duas realidades


Eça de Queirós é considerado um dos maiores prosadores de Portugal de todos os tempos. Utilizando linguagem correta, perfeita, com extremo domínio do léxico, seu estilo flui sem interrupções, preciso, contínuo e maleável. O volume A Cidade e as Serras é vazado dosando a ironia, a irreverência e a sensatez. É narrado em primeira pessoa por José Fernandes, personagem secundário, bom observador, que ouve com atenção as opiniões e acata a supremacia do protagonista Jacinto. As ações dividem-se entre os círculos mais abastados de Paris e as serras de Tormes, em Portugal, no final do século XIX.

Jacinto, personagem central da obra, por seu berço abastado, por sua boa sorte e boa saúde era conhecido como "Príncipe da Grã-Ventura". Acreditando que o homem só é "superiormente feliz quando é superiormente civilizado", reúne, em sua residência de Paris, aquilo que a tecnologia, os avanços da ciência, a cultura e a riqueza podem dar. Suas investidas e sua enorme cultura o fazem passar da mais completa euforia (deslumbramento) ao maior pessimismo (cansaço da civilização). Reconcilia-se com a vida ao desembarcar em Tormes e defrontar-se com a beleza da natureza. Uma pequena nuvem embaça a vivência de Jacinto em Tormes, quando descobre a pobreza dos camponeses de suas terras, esforçando-se para lhes oferecer melhores condições de vida.

Casa-se com Joaninha, que lhe dá dois filhos saudáveis, fazendo-o esquecer-se definitivamente de Paris. Acompanha o amigo nessa jornada o narrador José Fernandes. Também de origem abastada, o narrador e personagem secundário foi expulso de Coimbra, sendo mandado pelo tio a Paris para estudos. Acamaradou-se com Jacinto, tornando-se atento observador das transformações por que passa o amigo. Na volta de alguns anos em Portugal, após a morte do tio e protetor, envolve-se em uma aventura amorosa com Madame Colombe, que lhe furta jóias e ouro. Constata a descrença e o pessimismo de Jacinto e o acompanha a Tormes, em Portugal. Após a conversão do amigo, José Fernandes retorna a Paris e, já não vendo encanto na cidade, resolve regressar definitivamente à sua terra. Outras personagens: na linhagem familiar do protagonista tem-se o avô Jacinto Galeão, miguelista extremado, que se refugiou em Paris quando da derrota de D. Miguel; e há o pai Cintinho, homem de pouca saúde que não conheceu o filho.

O círculo de Jacinto em Paris é composto pelos elementos da alta roda, personagens caricaturescas sempre apontadas por suas veleidades, como as da mundana Madame d'Oriol, as do Grão-Duque Casimiro e as do banqueiro judeu Efraim, representantes da burguesia que fazem do progresso uma fonte de lucro a gerar a desigualdade social. Dotado de inegável capacidade filosofante, está o criado Grilo. Do lado oposto estão os representantes da serra, a nobreza rural e os trabalhadores braçais miseráveis que são focalizados para acirrar os contrastes. Ao fazer um retrato minucioso de Paris, o narrador opõe duas naturezas e duas realidades: o meio urbano da Cidade Luz e o meio rural de Portugal. Paris é o centro do progresso e da civilização que, se a um tempo constrói a grandeza, por outro destrói a individualidade humana e marginaliza os menos privilegiados. Jacinto parte para as serras, tendo como pretexto a reconstrução de sua propriedade. Embarca os trastes do progresso, mas perde sua bagagem, chegando a Tormes só com a roupa do corpo. Eufórico com a vida no campo, gradativamente assimila os valores da natureza, embora, em contato com a miséria, procure reformar e remodelar a estrutura rural arcaica de Portugal.