A crítica salienta o estilo seco e econômico de Graciliano Ramos como seu atributo mais notável. A adjetivação farta, os ornamentos lingüísticos, a expressão rara, etc. cedem lugar a uma redação concisa, frases curtas, diretas e nos remetem apenas ao essencial, ao "concreto" descrito nas cenas. Graciliano Ramos ambienta Vidas Secas no desolador e carente mundo das secas, impregnando sua literatura de passagens que se aproximam da rudeza e animalização do Naturalismo.
Vidas Secas é o último romance de Graciliano Ramos e a única experiência do autor com foco narrativo em terceira pessoa. A obra é construída em forma de espiral, cujo início fechado ("Mudança", cap. I) abre-se no final, com o último capítulo ("Fuga") conduzindo os personagens para um destino insólito, mas que mantém o elo da desdita, da miséria, da fome e da pobreza. Entre os dois capítulos-limite são constituídos 11 quadros, que, aparentemente, nada têm em comum a não ser os personagens e a paisagem. Um tênue fio narrativo faz o leitor conhecer a história de uma família de retirantes nordestinos que foge da seca, encontra período de passageira estabilidade e parte novamente em retirada, quando as chuvas deixam de cair, prenunciando novo período de seca. A economia (de estilo, de linguagem, de vida e de cenário) pode ser destacada como característica básica do volume.
Uma massa humana figura como personagem, sobressaindo Fabiano, homem rude, de pouco falar, que se assusta diante do desconhecido, é desconfiado e manipulado pelos poderosos, identifica-se com os bichos, o que denuncia a condição subumana a que está confinado. Seu modo de ser e de viver muitas vezes aproxima-o do modo de ser e viver de um animal, no processo conhecido como zoomorfização. Sinhá Vitória, esposa de Fabiano, é sua versão feminina. Seu sonho é ter uma cama de couro, igual à de Seu Tomás da Bolandeira. O casal tem dois filhos, referidos como "o menino mais novo" e "o menino mais velho". Não recebem nomes. O texto deixa entender que os garotos perpetuarão o mesmo tipo de vida dos pais, o que caracterizaria um círculo vicioso. Destaca-se ainda a cadela Baleia, personagem que mais se assemelha a um "ser humano". Solidária, atenciosa e amiga, Baleia é o elemento que confere humanidade ao grupo, sendo exemplo de antropomorfização. Como contraponto, aparece o Soldado Amarelo, símbolo do poder autoritário, que subjuga Fabiano e todos aqueles que como ele vivem. |