Publicado em 1865, o livro Iracema recebe o subtítulo "Lenda do Ceará". Embora haja algumas intervenções de um narrador em 1ª pessoa, o romance é predominantemente narrado em 3ª pessoa. O livro é exemplo do indianismo romântico que carrega o fardo idealista de heroísmo e pureza sem mácula, valorizando o passado nacional para justificar o presente - a independência política de Portugal.
Iracema, "a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira", é filha do pajé da tribo tabajara e sacerdotisa da tribo. Mulher de fibra, corajosa, não hesita em abandonar seus valores, sua tribo, sua família e sua condição de sacerdotisa para entregar-se e viver um grande amor. Simboliza a terra brasileira: dócil, mas enérgica, acolhedora e pronta para receber o estrangeiro amigo. Simboliza também o processo de aculturação que o indígena brasileiro sofrerá. Apaixona-se pelo guerreiro português Martim, mas o amor é impossível, por ser ela a guardiã da bebida sagrada de Jurema, devendo sempre manter-se casta.
Ao entregar-se a Martim, abandona a tribo e rompe com suas tradições. Martim Soares Moreno, por sua vez, é guerreiro branco, amigo dos pitiguaras (habitantes do litoral), inimigo dos tabajaras, representa o colonizador português, enaltecido como bravo, valente, fiel, cristão, pronto a enfrentar os perigos para proteger os interesses de sua pátria. Envolve-se com Iracema, embora guarde lembranças da virgem branca que deixou em Portugal. Martim e Iracema vivem um belo amor na floresta, mas os trabalhos de guerra separam os felizes esposos. A índia dá à luz uma criança - Moacir, o filho da dor -, símbolo da união do branco com o índio, que marca a origem do povo brasileiro. Ao retornar, Martim encontra Iracema à beira da morte. Enterra-a ao pé de uma palmeira: o lugar passa a se chamar "Ceará". Martim parte para Portugal em companhia do filho e retorna quatro anos depois, para implantar a fé cristã. Destacam-se também, como personagens, Caubi, irmão de Iracema, exemplo de lealdade e dedicação fraterna e Irapuã, cacique da tribo dos tabajaras, vingativo e mau, apaixonado por Iracema. Movido pelo ciúme, investe e incentiva a luta contra os guerreiros pitiguaras, liderados por Martim, Poti e Jacaúna, irmão de Poti e cacique da tribo.
Ousado e inovador, José de Alencar rompeu com padrões estilísticos e gramaticais do português literário do século XIX procurando criar uma língua brasileira, pesquisando vocábulos de origem indígena. Extremamente lírico, Iracema transformou-se em um dos mais louvados poemas em prosa da Literatura Brasileira. Alencar utiliza adjetivação abundante, excesso de comparações, pontuação excessiva e prefere períodos coordenados. |