"Escola:
fábrica de cidadãos "
Anna
Veronica Mautner
P
arece-me importante manter independentes, na medida do possível,
família e escola, para que cada uma delas possa realizar
suas funções. À família, cabe
forjar homens, e é específico da escola formar
cidadãos. Assimilar uma informação nova
é tarefa dependente do status que atribuímos
à fonte emissora: se vemos a origem da informação
como respeitável, nossa tendência é aceitá-la.
Acontece que os professores, importante fonte de informação,
vivem uma ampla desmoralização. Não são
levados a sério nem pelo governo, nem pelos alunos,
passando por pais e também pelos mestres entre si.
A família é regida pela tradição,
pela afetividade e é predominantemente oral. A escola
é uma instituição submetida ao Estado,
direta ou indiretamente. São comunidades letradas,
com regras estabelecidas dentro de um sistema hierárquico.
Para a criança, é complicado passar do lar,
do afeto e da oralidade para a impessoalidade da instituição
pública letrada. Na escola, as relações
são ordenadas por estatutos, leis escritas, além
de ideologias e metodologias educacionais. A transição
é realizada por meio do professor, a quem cabe prepará-la
para ser cidadão do mundo. Por que um professor que
não é prezado deveria ser levado a sério
pela criança? Como ela se sente nessa transição
é parte da soma dos sinais que ela capta: como os pais
se referem aos professores, como percebem a hierarquia da
escola e o estado de ânimo do professor.
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[...] SE EM CASA SOMOS, CADA UM DE NÓS, ESPECIAL E
ÚNICO, É NA ESCOLA QUE DEVERÍAMOS APRENDER
A SER IGUAIS PERANTE A LEI
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Já vai longe o tempo em que os professores eram cidadãos
dignos de todo o respeito: conhecidos pelo nome, saudados
respeitosamente quando encontrados e lembrados anos depois.
Dizem que tudo mudou e que eles são mal pagos. Concordo
parcialmente com o fato, mas não com seus efeitos.
Afinal, quem determina salários são adultos
que já foram alunos e que são hoje pais de alunos.
Não sei se o dinheiro é determinante. Não
são poucos os estudos sobre desempenho de tarefas nos
quais o pagamento não é decisivo. Veja-se todo
o movimento de voluntariado! Destaco um fato que parece inócuo,
mas que simbolicamente é importante. Parece-me significativa
a mudança na forma de tratamento dos mestres. Eles
deixaram de ser "seu fulano" para ser "tio".
É uma penetração do lar na escola.
Junto com a oralidade, veio o desprestígio da escrita
que regra as relações no mundo. As pessoas,
para bem viver, deverão obedecer às regras da
família, da comunidade e da nação. Quando
geramos a indefinição entre família,
comunidade e nação, estamos dizendo que a informalidade
deve prevalecer, pelo menos naquele momento -da entrada na
escola.
Para facilitar a adaptação à escola,
invadimos sua autoridade de formadora de cidadãos,
e o excesso da presença dos pais dilui a fronteira
lar-escola.
Não ousaria afirmar, mas ouso levantar a lebre de que
esse jeito de lidar com a instituição que tem
por missão esculpir cidadãos pode facilitar
o desrespeito futuro a regras, leis e estatutos. Se em casa
somos especiais e únicos, é na escola que deveríamos
aprender a sermos iguais perante a lei. Mas se é aí
que descobrimos que existem "jeitinhos" e que mamãe
pode nos proteger...
Na vida pública, devemos suportar revezes no estatuto
da cidadania. Caso contrário, criamos não um
estado de exceção, mas estado de exceções.