"A Crônica da Tragédia Pré Anunciada"

Profa. Doroty

A tragédia já não está nas obras de Shakespeare. A Comédia? Gil Vicente? Onde estão? O que são? Talvez um amontoado de quinquilharias amareladas juntando poeira num porão qualquer, ou quem sabe um monte de entulhos sendo enterrados como se fossem "lixão" e, lá em cima do buraco cavado, para armazenar o material sem uso, obsoleto e arcaico, um senhor já idoso coloca uma placa sinalizando o seu luto pelo velório assistido, onde só ele chora e lamenta a perda. - Aqui jaz um amontoado de clássicos, que se foram! Foram-se para sempre da vida das pessoas que um dia tiveram de aprender a ler e não puderam, ou daquelas que tiveram oportunidade de aprender a ler e não quiseram. No entanto, não consigo ver o futuro de outra maneira, vazio, sem perspectiva, pálido, triste... Os jovens e as crianças sendo guiados por um "rato" ou um "mouse", que seja. Velhos tempos aqueles da frase "Ratos de biblioteca"... Hoje, até o rato é americanizado e como tudo o que é americanizado, conduzido para um mundo onde se vive de "efeitos especiais" e não de "imaginação fértil" Um mundo onde não se convive, se teletransporta. E-books, quem diria; aos montes, espalhados pelas bibliotecas virtuais distribuídas na rede. E o cheiro do livro? A beleza do livro? E a paixão em segurá-lo? Nos dias dias de hoje a informação vem em massa, mas perdeu-se o mais importante, a curiosidade e a sabedoria, pois num "clicar de mouse" podemos "navegar" e em segundos saber o que acontece no outro lado do mundo. Ainda permanecem as insistentes estantes, nas casas de um público fiel; leitores formados, um grupo quase extinto, porém que insiste e que não abre mão de um velho livro de histórias e poesias... Eu não sei onde quero chegar com esse amontoado de palavras, que também virarão peças de museu, mas posso dizer que a competição tem sido desleal, enfim, se duvidarmos nem amigos reais teremos daqui a algum tempo. Mas, eu resisto! Resisto às máquinas cada vez mais potentes que atrapalham a minha missão para o mundo dos meus alunos;não o e-book, mas o "e-book" já lido e resumido, prontinho para ser entregue, num clicar de mouse. Amor virtual, amigos virtuais, ladrões virtuais, caixas eletrônicos virtuais, secretárias virtuais... O que nos resta, ainda, para que não exista mais o real? Pobres crianças informatizadas! Pobres adolescentes que já não brincam nas ruas, pobres, pobres leitores pobres, que não encontram palavras por não terem vivido a emoção de ler uma linda poesia de Camões, Vinicius de Moares, Drummond, Fernando Pessoa, Cecília Meirelles, Pablo Neruda... As palavras lhes faltam, mas não por emoção, simplesmente faltam, pela falta de ter sentindo um dia essa emoção... Saudades do dia em que recebi de "presente" o meu primeiro livro "Memórias de Emília", como prêmio pelo meu bom desempenho escolar. Mas, eu sou uma educadora e uma educadora não desiste nunca! Não quero presenciar a "queda dos livros", como já vivenciei as imagens da queda das "Torres Gêmeas, a catástrofe causada pelo Tsunami...

Não quero imaginar o futuro sem livros: chega de tragédias"