"Disciplina e Indisciplina. Causas, conseqüências e perspectivas."

Tânia Zagury
Publicado na Revista Pitágoras, setembro/2003

"Se, na criação de uma pessoa, os fatores adquiridos se opuserem aos inatos, as personalidades poderão sofrer conseqüências negativas?" Ser educador nunca foi tarefa simples. A disciplina, por exemplo, parece ter-se tornado particularmente problemática. É, aliás, um dos maiores desafios atuais. O caráter é o aspecto da personalidade que não decorre apenas de herança genética, embora seja por ela condicionada. Se as reações de caráter (adquiridas) se opuserem às tendências da personalidade (inatas) poderão tornar a pessoas angustiada e ansiosa. Todo educador precisa ajudar a criança a estruturar o caráter, mas de acordo com seu temperamento. Forçar uma criança tímida a se tornar extrovertida pode prejudicar seu equilíbrio. O que devemos fazer é ajuda-la a capitalizar positivamente suas características. Se uma forma de ser pode lhe trazer dificuldades, devemos tentar ameniza-la, sem alterá-la em sua essência. Afinal, um pouco de introspecção é também condição positiva. Devemos atuar de forma a promover condições que auxiliem-na a ter uma visão positiva de suas características, ao mesmo tempo em que desenvolve novas formas de interação social. Essa atuação deve incluir também irmãos, colegas e adultos, afim de que não exijam o que, para ela, representaria um grande esforço de auto-superação, nem sempre possível. O mesmo se deve fazer em relação às crianças com características opostas – as extrovertidas, irrequietas, voluntariosas ou desconcentradas. Cada uma demanda um tipo de trabalho que as encaminhe para a superação harmoniosa de suas dificuldades, sem, no entanto, descaracteriza-las. Respeitam-se diferenças e peculiaridades, trabalhando no sentido de se alcançar à socialização, sem destruir a individualidade. Na prática, implica transitar da idéia de disciplinamento para a de orientação da conduta. Para tanto, devemos estar preparados para enfrentar tanto os que exageram a noção de liberdade individual e pregam a completa abstinência de diretrizes orientadoras, quanto os que se posicionam no extremo oposto, defendendo uma volta às regras rígidas e punições severas para quaisquer atitudes de indisciplina. Quem discorda, mas se retrai, age ou porque está impressionado com as teorias psicologizantes e julga que vai “traumatizar” os adolescentes ou, por comodismo, prefere fechar os olhos à realidade, aceitando como inevitáveis os desacertos aos adolescentes. Desorientados, crianças e jovens entregam-se aos impulsos do hedonismo e do imediatismo: rompem os padrões vigentes e tentam criar uma realidade na qual a ausência de compromissos para com os outros e para com a sociedade torna-se a tônica. Se da parte dos alunos há insegurança, comodismo ou desejo de ser considerados liberais, da parte dos jovens vários motivos explicam a conduta inadequada. Muitos julgam que se opondo às normas criadas pela sociedade estão utilizando uma forma de protestarem ou de encontrarem o próprio ego. Outros, desamparados num mundo violento e desigual, criado pela sociedade pós-moderna e, percebendo a própria incapacidade para enfrenta-lo, aderem aos demais. O triste, porém, é que uns e outros não se realizam na marginalização, tanto assim que alguns se suicidam ou se refugiam no álcool, nas drogas, nos excessos sexuais, nos fanatismos religiosos ou políticos. Se o jovem deseja liberdade, quer também amor e orientação. Quando sente que a orientação de conduta é ditada pelo afeto e que os limites não são disfarces para o autoritarismo, aceitam-nos e aderem, sentindo-se protegidos e não subjugados. São os limitem e as regras sociais que nos protegem de atos irrefletidos e nos dão sensibilidade e empatia.

A vida em comum exige que respeitemos leis e normas. Para tanto, precisamos crer no princípio de que é possível sim, através de uma atitude afirmativa, aprimorar o que as novas gerações têm de positivo, minimizando os traços que impedem a humanização da sociedade.